Apenas sete mil robôs humanóides foram vendidos no mundo em 2025 e números expõem distância entre entusiasmo e mercado real
Cerca de sete mil robôs humanóides foram vendidos mundialmente em 2025 para utilização industrial e serviços profissionais, revelando que o mercado continua numa fase inicial apesar dos avanços tecnológicos e do forte interesse dos investidores.
Foto: DR
Paulo Massunda
Colaborador
Os dados foram compilados pela Federação Internacional de Robótica (IFR) e divulgados pela Reuters nesta segunda-feira, 21 de Setembro de 2026. A contagem oferece uma das primeiras referências globais específicas para avaliar a dimensão comercial dos humanóides, máquinas que ganharam visibilidade com demonstrações de corrida, dança, manipulação de objectos e tarefas em fábricas.
A IFR , entidade que acompanha a indústria da robótica há cerca de três décadas, começou a recolher dados específicos sobre humanóides para distinguir as vendas destas máquinas das restantes categorias de robôs. A federação considera humanóide um robô com aparência semelhante à humana, capaz de operar autonomamente em ambientes concebidos para pessoas. Ter pernas não é um requisito obrigatório.
A dimensão ainda reduzida do mercado torna-se mais evidente quando comparada com a robótica convencional. Segundo o relatório World Robotics 2025 , foram instalados 542 mil robôs industriais em 2024, enquanto as vendas de robôs de serviços profissionais se aproximaram das 200 mil unidades nesse ano. A comparação envolve categorias diferentes e períodos distintos, mas ajuda a perceber a escala que os humanóides ainda não atingiram.
Muitos humanóides ainda são utilizados para aprender, não para trabalhar
Uma parte importante das máquinas vendidas em 2025 foi adquirida por instituições de investigação e empresas que procuram recolher dados para melhorar modelos de inteligência artificial.
Susanne Bieller, secretária-geral da IFR, explicou à Reuters que muitos destes robôs ainda não estão a executar trabalho produtivo. São utilizados para aprender movimentos, manipular objectos e gerar informação necessária ao desenvolvimento de sistemas mais autónomos.
Esta distinção é essencial para interpretar os números. A venda de uma máquina a um centro de investigação demonstra procura pela tecnologia, mas não significa necessariamente que o robô já consiga substituir ou complementar, de forma economicamente sustentável, uma actividade numa fábrica.
A indústria automóvel está entre os sectores que começaram a experimentar humanóides em ambientes reais. Contudo, segundo Bieller, os projectos-piloto envolvem habitualmente menos de dez máquinas por unidade industrial ou, em alguns casos, algumas dezenas.
Existem, ainda assim, resultados concretos. A BMW informou que o Figure 02, testado na sua fábrica de Spartanburg, nos Estados Unidos, participou durante 2025 na produção de mais de 30 mil automóveis BMW X3. Ao longo do projecto, movimentou mais de 90 mil componentes e acumulou aproximadamente 1.250 horas de funcionamento. A experiência mostra que determinadas tarefas industriais já são possíveis, embora não represente uma adopção generalizada da tecnologia.
Previsões apontam para crescimento acelerado
O contraste entre as vendas registadas e as expectativas para os próximos anos permanece significativo.
O Bank of America Global Research estima que as entregas mundiais de humanóides possam alcançar 90 mil unidades em 2026 e 1,2 milhões em 2030, segundo os números citados pela Reuters. São projecções, não resultados confirmados, e poderão diferir da contagem da IFR quanto à abrangência do mercado.
A China deverá desempenhar um papel importante nesta expansão. O país já é o maior mercado mundial de robôs industriais e tem promovido o desenvolvimento da chamada inteligência incorporada, que combina modelos de inteligência artificial com máquinas capazes de actuar no mundo físico.
A distância entre as previsões e as vendas actuais ajuda a explicar por que os fabricantes estão a investir em recolha de dados, aperfeiçoamento de movimentos e testes em ambientes industriais. Para conquistar clientes em grande escala, os humanóides terão de demonstrar não apenas que conseguem executar uma tarefa, mas que a realizam com segurança, regularidade e custos competitivos.
Os dados não demonstram um fracasso da tecnologia. Mostram que a sua comercialização ainda está numa fase inicial. A próxima etapa será transformar os avanços apresentados em laboratórios e demonstrações públicas em máquinas capazes de produzir resultados consistentes no quotidiano das empresas.
A contagem relativa a 2025 tem também limites: abrange humanóides destinados à indústria e aos serviços profissionais, excluindo aplicações de consumo e militares. Os robôs médicos são classificados separadamente. Os dados globais mais recentes das restantes categorias deverão ser publicados pela IFR em 24 de Setembro, permitindo actualizar a comparação entre os diferentes segmentos.
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