Novo telescópio espacial da NASA “abre os olhos” pela primeira vez e prepara levantamento sem precedentes do Universo
A NASA activou com sucesso a câmara principal de 300 megapíxeis do telescópio Nancy Grace Roman, que já recebeu os primeiros fotões de estrelas no espaço.
Foto: NASA/Goddard
Redacção
O Nancy Grace Roman Space Telescope alcançou um dos momentos mais importantes desde o seu lançamento: a NASA confirmou em 15 de Setembro que o Wide Field Instrument (WFI), a principal câmara científica do observatório, foi activado com sucesso e captou pela primeira vez luz proveniente de estrelas.
O teste representa uma etapa decisiva para um telescópio concebido para investigar algumas das maiores questões da astronomia moderna, incluindo a natureza da energia escura, a distribuição da matéria no Universo e a procura de planetas fora do Sistema Solar.
O Roman foi lançado em 30 de Agosto de 2026, a bordo de um Falcon Heavy, e encontra-se actualmente a viajar para a região do segundo ponto de Lagrange Sol-Terra, L2, situada a cerca de 1,6 milhões de quilómetros da Terra.
Primeira luz chegou à câmara — mas ainda não é uma fotografia científica
A NASA divulgou uma imagem de teste que contém os primeiros fotões de luz estelar recebidos pelo Wide Field Instrument no espaço.
A imagem aparece deliberadamente desfocada. A matriz de detectores encontrava-se ainda na configuração utilizada durante o lançamento e, portanto, longe da posição de foco necessária para as observações científicas.
O objectivo não era produzir uma fotografia espectacular do cosmos, mas verificar se o instrumento sobreviveu ao lançamento e consegue efectivamente receber e detectar luz.
“Depois de anos de trabalho para construir e testar o instrumento no solo, temos agora a confirmação de que está operacional no espaço”, afirmou Josh Schlieder, cientista do Wide Field Instrument no Goddard Space Flight Center da NASA.
Uma câmara de 300 megapíxeis para cartografar o Universo
O WFI possui aproximadamente 300 megapíxeis e observa principalmente no infravermelho.
A combinação entre resolução e campo de visão constitui uma das principais diferenças relativamente ao Hubble Space Telescope.
Segundo a NASA, cada exposição do Roman poderá abranger uma região do céu maior do que a Lua cheia aparenta vista da Terra, mantendo uma nitidez comparável à dos grandes telescópios espaciais existentes.
Em termos gerais, o campo de visão do Roman será pelo menos 100 vezes superior ao do Hubble, permitindo observar grandes áreas do Universo muito mais rapidamente.
Isso transforma o Roman numa espécie de gigantesco cartógrafo cósmico.
Enquanto observatórios como o James Webb conseguem estudar objectos individuais com enorme detalhe, o Roman foi concebido para realizar levantamentos extensos, identificar populações inteiras de galáxias, estrelas e sistemas planetários e fornecer alvos para investigações posteriores.
Até mil milhões de galáxias
A dimensão prevista para os levantamentos explica o interesse científico da missão.
A NASA estima que o Wide Field Instrument poderá medir a luz proveniente de cerca de mil milhões de galáxias ao longo da missão.
Ao observar como essas galáxias estão distribuídas e como a estrutura do Universo evoluiu ao longo do tempo, os investigadores esperam testar diferentes explicações para um dos maiores mistérios da cosmologia: por que razão a expansão do Universo está a acelerar.
A energia escura é actualmente utilizada para descrever o fenómeno responsável por essa aceleração, mas a sua verdadeira natureza permanece desconhecida.
O Roman deverá utilizar diferentes métodos cosmológicos para testar o comportamento dessa expansão e mapear a distribuição da matéria em enormes volumes do Universo.
Também poderá encontrar milhares de novos mundos
O telescópio terá igualmente uma missão importante na investigação de exoplanetas.
Através de observações de microlente gravitacional — fenómeno em que a gravidade de uma estrela amplifica temporariamente a luz de outra mais distante — o Roman poderá detectar planetas que seriam extremamente difíceis de encontrar por outros métodos.
A missão deverá realizar um verdadeiro censo estatístico de sistemas planetários da Via Láctea.
Ao lado da câmara principal encontra-se ainda o Coronagraph Instrument, uma demonstração tecnológica destinada a bloquear a intensa luz das estrelas para permitir observar directamente planetas muito mais ténues que as orbitam.
A NASA confirmou agora que esse instrumento também realizou os primeiros movimentos digitais, electrónicos e mecânicos desde que foi activado no espaço.
Roman ainda não começou a fazer ciência
Apesar do sucesso, o telescópio ainda está numa fase de comissionamento.
Os instrumentos terão de passar por uma sequência de calibrações, testes electrónicos, ajustes ópticos e verificações de desempenho antes de começarem as observações científicas regulares.
O Roman continua igualmente a deslocar-se para a sua região operacional próxima de L2.
A NASA prevê divulgar as primeiras imagens científicas no início de 2027.
Por isso, o acontecimento desta semana não deve ser confundido com o início formal da missão científica.
O que aconteceu é tecnicamente anterior — e fundamental: a principal câmara que deverá observar até mil milhões de galáxias foi ligada no espaço, recebeu luz estelar e respondeu como previsto.
Depois do lançamento bem-sucedido, é a confirmação de que o instrumento central do Roman sobreviveu à viagem inicial e está preparado para entrar na fase de calibração que antecede a exploração do Universo.
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