Os ‘Arquivos Domésticos’ de Oksanna Dias ‘suturados’ em exposição colectiva
O objectivo é estabelecer uma passagem entre a memória individual e a memória colectiva.
Foto: Nilwa António
Nilwa António
Jornalista, fotógrafo e editor-chefe
‘Arquivos Domésticos’ é o tema da obra que a artista visual Oksanna Dias apresenta na exposição colectiva ‘Sutura – Onde o tempo de se faz obra’, protagonizada por estudantes da Faculdade de Artes da Universidade de Luanda.
A criação, pertencente à colecção ‘Memórias da Minha Avó’ e que acompanha uma instalação com um ferro de engomar a carvão, procurando permitir ao público uma aproximação visual ao objecto e ao modo como era utilizado, parte de objectos e memórias do ambiente doméstico para abordar temas como ancestralidade, colonialismo e o “trabalho invisível” desempenhado pelas mulheres.
Ouvida pelo Noticiário, a artista explica que o trabalho reúne obras construídas a partir de materiais e elementos domésticos que remetem para memórias da sua infância, com destaque para o ferro de engomar antigo como elemento de reflexão sobre diferentes períodos históricos e sociais.
Oksanna Dias estabelece uma relação entre o antigo ferro de engomar, que precisava de carvão aquecido para funcionar, e o actual ferro eléctrico, associando essa transformação à chegada da tecnologia e da globalização, ao mesmo tempo que recupera a dimensão do trabalho doméstico realizado pelas mulheres, muitas vezes pouco reconhecido ou valorizado.
Ademais, o objecto permite à artista plástica estabelecer uma reflexão sobre o colonialismo e a escravatura. O formato do ferro, que identifica como semelhante ao de uma embarcação, levou-a a estabelecer uma associação com os navios utilizados no tráfico de pessoas escravizadas a partir de Angola. O carvão colocado no interior do ferro, por sua vez, é relacionado com o fogo e com sentimentos como raiva, medo e angústia associados a esse período histórico.
“É um único elemento que eu vou fazendo pesquisa e investigando de certas maneiras como elas podem ter leituras”, declarou a também muralista.
A representação visual
A obra apresenta uma paleta de tons terrosos, associada à terra e ao solo, e incorpora outros elementos relacionados com as memórias da casa da avó, entre eles a figueira e as galinhas. Estes elementos são utilizados para construir uma narrativa visual que cruza memórias familiares com acontecimentos históricos.
A técnica utilizada é mista, com recurso à colagem. Ou seja, entre outros materiais, a pintora utiliza papel higiénico para criar textura e conferir às superfícies um aspecto mais rústico e imperfeito, numa acção em que a escolha dos materiais e dos elementos domésticos procura conectar o resultado às memórias e objectos que inspiraram a colecção.
O carvão e o próprio funcionamento do ferro tornam-se, assim, parte da narrativa da obra e da investigação desenvolvida pela artista. Então, mais do que recuperar memórias pessoais, Oksanna Dias pretende transformá-las em matéria de reflexão colectiva, defendendo que conhecer acontecimentos dolorosos do passado, como a escravatura, é também uma forma de compreender o presente e pensar sobre o futuro.
O objectivo, clareou, é estabelecer uma passagem entre a memória individual e a memória colectiva, utilizando elementos da sua própria história familiar para provocar no público uma reflexão mais ampla sobre a história, a ancestralidade e as marcas que determinados acontecimentos continuam a deixar na sociedade.
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