Tiago João: Traumas e memórias que com o tempo se fizeram obras
“Eu trouxe os meus traumas de criança e transformei-os numa obra de arte”, afirmou Tiago.
Foto: Nilwa António
Nilwa António
Jornalista, fotógrafo e editor-chefe
O jovem artista plástico Tiago Pascoal João é outro nome que intervém na exposição colectiva ‘Sutura – Onde o tempo se faz obra’, dos estudantes do terceiro ano da Faculdade de Artes da Universidade de Luanda, ainda patente no Palácio de Ferro, mas que já se encontra em contagem regressiva para o encerramento.
Nesta mostra, que fica patente até 22 deste mês e que propõe uma reflexão sobre memórias, emoções e experiências que, com o passar do tempo, podem transformar-se em marcas ou cicatrizes traduzidas artisticamente, ‘Um poema, mil dilemas’ é a colecção de duas obras que Tiago João estampa em telas, trabalho que mescla memória com criação.
Uma delas, intitulada ‘A Rosita’, retrata a realidade de uma criança de seis anos, oriunda do Kwanza-Sul, que, segundo o artista, não fala português e enfrenta dificuldades relacionadas com a língua, além de situações de abuso e exploração infantil. A obra aborda a infância interrompida pela necessidade de assumir responsabilidades que não correspondem à idade.
Ao Noticiário, o pintor declarou que a própria exposição representa uma espécie de processo de transformação das experiências difíceis em criação artística. “Sutura são memórias, são obras que acabam por ser cicatrizes, frutos de traumas de infância ou traumas presentes, mas que depois depositamos na tela, que passa a ser a nossa cicatriz”, explicou.
Já a segunda obra, ‘Crianças de Rua’, representa diferentes petizes através de rostos visíveis e silhuetas, abordando não apenas meninos que vivem em situação de rua, mas também aqueles quem foram obrigados a sobreviver às suas dinâmicas e influências. No quadro, os rostos visíveis retratam as crianças que conseguiram ultrapassar as dificuldades e encontrar um caminho, através da escola, do trabalho ou de outras formas de reconstrução das suas vidas, ao passo que as figuras em silhueta simbolizam aquelas que acabaram por perder valores e identidades ou tiveram destinos mais trágicos.
“Eu não trago apenas as crianças que vivem especificamente nas ruas, mas aquelas que tiveram que sobreviver às ruas, às suas leis, à convivência e às influências boas e más”, explica Tiago João.
As duas obras levantam questões ligadas à infância, vulnerabilidade social e memória, transformando experiências e inquietações em linguagem visual e contribuindo para o debate sobre o papel da arte contemporânea na abordagem de problemas sociais.
Um projecto que ultrapassa uma exposição académica
Segundo o artista, a mostra ultrapassa a dimensão de um simples projecto académico. O conceito pode ser entendido como um convite à transformação de experiências difíceis em algo construtivo.
“Eu trouxe os meus traumas de criança e transformei-os numa obra de arte”, reiterou o entrevistado, acrescentando que o público pode também reconhecer-se ou identificar experiências pessoais nas obras apresentadas.
O autor defende ainda a importância da formação artística, sobretudo para quem pretende desenvolver uma carreira no sector. Como contou, antes de frequentar a Faculdade de Artes, teve um percurso como autodidacta, mas reconhece os benefícios da formação académica para ampliação dos conhecimentos, aumento da rede de contactos e melhor conhecimento do mercado artístico.
Embora reconheça que a formação académica não seja o único caminho para quem pretende fazer arte, Tiago João entende que ela pode criar oportunidades que nem sempre estão ao alcance de um artista autodidacta, como o contacto com galerias, exposições e outros profissionais do sector, daí que aconselha jovens interessados na área a considerarem também a formação artística como uma possibilidade de desenvolvimento.
Comentários (0)
Junte-se à conversa
Para partilhar a sua opinião de forma segura, precisa de ter uma conta.
Ainda não há comentários. Seja o primeiro a participar.
