Luanda, Angola
Arte e Cultura

Cadjengue – Arte além do ofício e busca por nobreza

A ideia é criar um ambiente colaborativo onde artistas de diferentes áreas possam apresentar o seu trabalho.

Cadjengue – Arte além do ofício e busca por nobreza

Foto: Nilwa António

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Nilwa António

Jornalista, fotógrafo e editor-chefe

13 abr 2026
5 min de leitura
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A Cadjengue é uma empresa angolana pioneira no string art, técnica artesanal que utiliza pregos e linhas, que vem da trajectória artística de Wilson Correia e hoje se afirma como um caso raro de sucesso ao transformar arte em negócio sustentável. Em entrevista ao Noticiário, Abílio Tomás, membro da equipa comercial, conta como a criatividade, combinada com estratégia comercial, ‘compra’ o seu espaço e tem aberto caminho para uma nova geração de artistas num mercado ainda em construção.

Noticiário: Como a Cadjengue percebeu que poderia transformar este ofício num projecto profissional?

Abílio Tomás: A Cadjengue nasce a partir do percurso artístico de Wilson Correia, que teve o primeiro contacto com a técnica do string art em 2019, no contexto universitário. Inicialmente, a técnica era utilizada como apoio na construção de maquetes e exercícios ligados à arquitectura. Com o tempo, tornou-se evidente que a combinação entre pregos e linhas poderia ir muito além de uma aplicação técnica. A partir de 2022, o trabalho com string art começou a ganhar mais profundidade e consistência, transformando-se numa prática artística regular. Foi nesse processo que surgiu a Cadjengue, como forma de organizar a produção, desenvolver projectos autorais e estruturar a actividade de forma profissional. 

Noticiário: O que significa o nome ‘Cadjengue’ e de que forma ele representa a identidade da empresa?

Abílio Tomás: O nome está ligado à ideia de identidade e expressão cultural, sendo ele proveniente do kimbundu. Significa ‘trabalho’, ou ainda ‘biolo’, um termo que o artista Wilson Correia sempre ouviu o pai a dizer para referir-se a várias actividades laborais que fazia. Mais do que um nome comercial, ele representa um projecto artístico que procura valorizar a criatividade, o trabalho manual e a construção de algo significativo a partir de elementos simples.

Noticiário: O string art é, relativamente, ainda pouco conhecido em Angola. Como foi apresentar esta técnica ao público angolano nos primeiros anos?

Abílio Tomás: Apresentar o string art ao público angolano foi um processo gradual. No início, muitas pessoas olhavam para as obras com curiosidade, mas nem sempre compreendiam imediatamente como eram produzidas. A técnica ainda é pouco difundida no país, por isso cada obra acabava também por ser um momento de explicação, descoberta e um caminho para certas oportunidades. Com o tempo, à medida que mais trabalhos foram sendo divulgados nas redes sociais, canais televisivos e em encomendas personalizadas, o público começou a reconhecer melhor o valor artístico e o nível de detalhe que esta técnica permite alcançar.

Noticiário: Em que momento perceberam que a empresa não deveria apenas produzir arte, mas também formar e apoiar outros artistas?

Abílio Tomás: Esse entendimento surgiu naturalmente com o crescimento do projecto. À medida que mais pessoas demonstravam curiosidade sobre a técnica, ficou claro que havia interesse em aprender. Neste contexto, resolvemos começar apenas com uma formação, com dois contemplados, Jessé Sonda e Sukadi, enquanto analisamos quando vamos expandir para ensinar outros que não fazem parte da Cadjengue.

Noticiário: Como funciona, na prática, esse espaço que a Cadjengue decidiu abrir para artistas de diferentes formatos?

Abílio Tomás: A ideia é criar um ambiente colaborativo onde artistas de diferentes áreas possam apresentar o seu trabalho, trocar experiências e desenvolver projectos criativos. Actualmente, contamos com 2 artistas, o Wilson e a Liana Raimundo, que dominam artes plásticas, desenho a lápis e obras em gesso.

Noticiário: Quais acredita serem os principais desafios dos artistas angolanos, hoje em dia?

Abílio Tomás: Entre os principais desafios estão a falta de estruturas de apoio, dificuldades de financiamento, ainda um mercado artístico em desenvolvimento e, acima de tudo, capacidade de venderem os seus produtos de forma regular. Muitos artistas dependem quase exclusivamente da iniciativa individual para divulgar e comercializar o seu trabalho, o que exige muita persistência e capacidade de adaptação.

Noticiário: Nota que o público angolano já começa a valorizar mais a arte contemporânea?

Abílio Tomás: Há sinais positivos. Cada vez mais pessoas demonstram interesse por obras autorais e peças feitas à mão. No entanto, ainda existe um longo caminho a percorrer para consolidar um mercado artístico mais forte e estruturado, assim como existe em outros países.

Noticiário: Luanda é um mercado difícil ou fértil para artistas?

Abílio Tomás: Luanda apresenta simultaneamente desafios e oportunidades. Por um lado, é um mercado competitivo e exigente; por outro, concentra um grande público e uma diversidade cultural que pode favorecer a circulação de novas propostas artísticas.

Wilson Correia e suas obras

Noticiário: O que torna o string art especial?

Abílio Tomás: O string art combina precisão técnica, paciência e criatividade. A partir de elementos simples (linhas e pregos) é possível criar imagens complexas, efeitos de luz e sombra e até retratos extremamente detalhados. Essa combinação entre simplicidade de materiais e complexidade visual é o que torna a técnica particularmente fascinante. É difícil não ligar a matemática e a geometria ao string art.

Noticiário: Que balanço faz do percurso da Cadjengue? Os números são satisfatórios?

Abílio Tomás: O balanço é positivo. Ao longo deste percurso de 3 anos, a Cadjengue conseguiu afirmar-se como um projecto criativo dentro de um campo artístico ainda pouco explorado em Angola tornando a maior referência de obras feitas em string art. Neste momento, somos praticamente os únicos neste segmento, o que nos permite aproveitar bem o mercado. Já temos escritório, oficina e oito colaboradores que sustentam as suas famílias através deste trabalho. Só no ano passado vendemos 134 retratos, e este ano, até Março, já atingimos cerca de 25% desse número. A tendência é crescer ainda mais. Por exemplo, um quadro nosso de 80x80 pode custar 327.750 kwanzas, e os nossos clientes aceitam, porque percebem a valorização do trabalho.

Noticiário: Que obras têm sido mais procuradas pelos clientes?

Abílio Tomás: Entre as encomendas mais frequentes estão retratos personalizados, logótipos empresariais e quadros decorativos. Essas peças costumam ter um valor emocional ou simbólico importante para quem as encomenda.

Noticiário: Onde gostariam de ver a Cadjengue nos próximos cinco ou dez anos?

Abílio Tomás: A visão para o futuro passa por consolidar a Cadjengue como uma referência no string art em Angola, ampliando a produção artística e fortalecendo o papel do projecto na formação de novos criadores. E a internacionalização é um passo natural para qualquer projecto artístico que procura crescer. Participar em exposições e plataformas internacionais pode ajudar a mostrar a criatividade angolana e ampliar o reconhecimento do string art produzido no país.

A ‘família’ Cadjengue

Noticiário: Uma mensagem para os jovens artistas angolanos.

Abílio Tomás: Aos jovens artistas, a mensagem é simples: persistência e dedicação são fundamentais. A arte exige paciência e trabalho contínuo, mas também oferece a oportunidade de transformar ideias em algo que pode inspirar outras pessoas. Por fim, aprendam a vender ou unam-se a quem tem domínio de venda, porque empreender é saber fazer chegar o seu produto às pessoas certas.

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Categoria:Arte e Cultura

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