Cientistas identificam circuito cerebral associado aos lapsos de memória durante a gravidez
Níveis elevados e prolongados de estrogénio podem provocar alterações temporárias de memória durante a gravidez, através de um circuito cerebral agora identificado por investigadores.
Foto: DR
Paulo Massunda
Colaborador
A investigação, conduzida por cientistas do Baylor College of Medicine, da Universidade de Shandong e do Pennington Biomedical Research Center, foi publicada na revista científica Science Bulletin e ganhou nova projecção internacional nesta segunda-feira, 21 de Setembro, depois de os resultados serem divulgados pela Reuters.
Os investigadores procuraram explicar biologicamente um fenómeno frequentemente descrito como pregnancy brain ou “momnesia”: lapsos de memória, dificuldade de concentração e sensação de confusão relatados por algumas mulheres durante a gravidez.
A equipa utilizou ratinhos submetidos a níveis elevados e sustentados de estrogénio semelhantes aos encontrados durante a gestação. Os animais apresentaram alterações reversíveis de memória, sem mudanças equivalentes no humor ou na motivação.
Estrogénio altera comunicação entre duas regiões do cérebro
A investigação identificou o mecanismo numa ligação entre o hipotálamo lateral e o hipocampo, região particularmente importante para a formação de memórias.
Nos animais, níveis elevados de estrogénio alteraram a actividade de neurónios GABAérgicos do hipotálamo lateral. Estes neurónios comunicam directamente com a região CA3 do hipocampo e tornaram-se mais activos durante a exposição prolongada à hormona.
Os cientistas conseguiram demonstrar experimentalmente a importância desta ligação.
Quando removeram receptores de estrogénio dos neurónios do hipotálamo, os problemas de memória provocados pelo estrogénio ou pela gravidez nos ratinhos desapareceram. Quando bloquearam especificamente a comunicação entre esses neurónios e o hipocampo, também protegeram os animais contra a alteração de memória.
O efeito contrário ocorreu quando os investigadores activaram artificialmente o mesmo circuito: os animais desenvolveram dificuldades de memória mesmo sem níveis elevados de estrogénio.
Estes resultados fornecem evidência causal nos modelos animais. Essa distinção é importante porque o estudo não demonstrou experimentalmente o mesmo mecanismo dentro do cérebro de mulheres grávidas.
Investigadores também avaliaram mulheres grávidas
Para verificar se existiam sinais compatíveis em humanos, a equipa realizou testes de memória em mulheres durante diferentes fases da gravidez.
Os investigadores observaram alterações específicas de memória no final da gestação e encontraram uma associação com níveis mais elevados de estrogénio circulante, mesmo depois de considerarem outros factores capazes de influenciar a cognição.
Os dados humanos reforçam a hipótese proposta pelo estudo, mas não provam que o circuito hipotálamo-hipocampo funcione exactamente da mesma maneira nas mulheres. A demonstração directa do mecanismo foi realizada nos animais.
Esta cautela impede uma conclusão exagerada de que os investigadores “resolveram” definitivamente o fenómeno da chamada “momnesia”.
O que conseguiram foi identificar um mecanismo biológico plausível e experimentalmente demonstrável que pode explicar parte das alterações de memória associadas à gravidez.
Alteração é temporária e não significa perda de inteligência
Os investigadores salientam igualmente que os resultados não indicam uma deterioração generalizada da capacidade cognitiva.
As alterações observadas foram temporárias e específicas para determinadas tarefas de memória, não sinais de redução global da inteligência.
A descoberta também poderá ajudar a compreender uma aparente contradição científica em torno do estrogénio.
Exposições normais e cíclicas à hormona podem desempenhar funções positivas na cognição. Já níveis elevados e mantidos durante longos períodos, como acontece na gravidez, parecem activar mecanismos diferentes no cérebro.
A investigação poderá ainda ser relevante para estudar alterações cognitivas associadas a determinados contraceptivos hormonais, embora o estudo não permita concluir que todas as mulheres que os utilizam terão problemas de memória.
O passo seguinte será determinar até que ponto o mecanismo observado nos animais corresponde ao funcionamento do cérebro humano e se existem outros circuitos ou alterações hormonais envolvidos.
Por enquanto, a descoberta fornece uma das evidências biológicas mais concretas para um fenómeno relatado há muito tempo durante a gravidez: determinadas alterações de memória podem estar relacionadas com a forma como níveis elevados de estrogénio modificam temporariamente a comunicação entre regiões específicas do cérebro.
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